Empresa endividada: três saídas para atravessar os juros altos

Empresa endividada: três saídas para atravessar os juros altos

A sua empresa está endividada, ou caminhando para isso? Eu gravei um alerta sobre esse assunto porque o cenário junta duas coisas ruins ao mesmo tempo: o cliente sem dinheiro e o crédito caro. Empresa endividada, hoje, não é exceção, e se você está passando por isso, você não está sozinho. Mas tem saída, e ela começa por três decisões que estão na sua mão, não na mão do governo nem do banco.

O cliente que comprava de você está sem dinheiro

Comecei pelo lado do consumidor. Pela pesquisa de endividamento da CNC, as famílias endividadas chegaram a 80,9% em abril de 2026, o maior índice da série. No mesmo mês, 29,7% das famílias tinham alguma conta em atraso. E o número continuou subindo: em agosto, já eram 82% das famílias endividadas.

O que isso significa para o seu negócio? Aquele cliente que costumava comprar de você está com o dinheiro comprometido. Às vezes ele deixa de comprar, às vezes compra bem menos do que comprava. E com os preços subindo, quem já está endividado consegue comprar menos ainda. O efeito aparece no seu faturamento antes de aparecer em qualquer manchete.

E o dinheiro emprestado ficou caro

Do outro lado está a taxa de juros, que pega a empresa no crédito. No vídeo eu mostrei um trecho de uma entrevista do Caito Maia, dono da Chilli Beans, ao UOL. Ele contou que a empresa pegou dívida na pandemia, com juros de 2% a 3%, para atravessar aquele período. Depois os juros subiram, e a mesma dívida passou a custar perto de 20%. Para ele, a conta não fecha com juros nesse patamar, nem para a Chilli Beans nem para ninguém.

Quem pegou empréstimo atrelado à Selic viu a parcela subir junto com os juros. Eu também mostrei uma conversa entre o João Adibe e o Flávio Augusto sobre o mesmo problema. A pergunta que fica é simples: que negócio no Brasil rende 20% ao ano líquido para pagar esse dinheiro? Quase nenhum. E quando o empresário fica sufocado, ele começa a escorregar para a informalidade.

É a loja que passa a vender sem nota, o funcionário contratado sem carteira, o imposto que fica para depois. Eu entendo o aperto, mas vender sem nota é um caminho muito perigoso. Uma hora a fiscalização chega, e a multa por imposto não pago é muito alta. A empresa endividada que entra nesse caminho troca um problema por outro maior.

Três saídas para a empresa endividada

Eu não vou resolver a taxa de juros do país. O que eu consigo é mostrar o que eu vejo funcionar dentro da empresa, para você se preparar ou para lidar com a situação se ela já chegou aí. São três saídas, e a ordem importa, porque a terceira depende das duas primeiras.

1. Separe o dinheiro da pessoa física do da empresa

Muito empreendedor mistura tudo. Usa o cartão da empresa para gasto pessoal, leva produto da empresa para casa e paga conta de casa com o caixa do negócio. Sem uma divisão clara, uma hora o problema aparece. Quando a pessoa física precisa de dinheiro, você tira da jurídica, mesmo que a empresa não esteja num momento de fazer aquele desembolso. E o caminho contrário também acontece.

A pessoa jurídica precisa caminhar por conta própria, e a pessoa física também. Você tira um pró-labore definido, e a empresa decide sozinha se precisa de crédito. Sem essa clareza, você nem consegue saber quem está puxando o dinheiro de quem. E sem saber isso, qualquer decisão sobre dívida vira chute.

2. Use o crédito só para crescer

A segunda saída é sobre alavancagem, que é pegar dinheiro emprestado com banco, fundo de investimento ou outra instituição. Alavancagem é ruim? Não é. Ela funciona quando o dinheiro vai para crescimento, ou seja, para gerar um dinheiro novo. Pegar crédito para comprar estoque que vai girar é perfeito. Pegar crédito para trocar o carro da empresa porque ele está velho não é.

Por que essa diferença pesa tanto? Se o dinheiro emprestado não gera uma entrada nova no caixa, você só está criando uma dívida nova. É assim que a empresa entra na espiral do endividamento. Vamos supor que você pegou R$ 100 mil a 3% ou 4% ao mês. Esse dinheiro precisa render, no mínimo, os mesmos 3% ou 4% para se pagar. O objetivo é que ele renda bem mais, 5%, 6%, 7% ou até 10% ao mês.

Eu também trabalho alavancado. Eu giro os meus contratos com dinheiro de fundo de investimento. A diferença é que eu só uso esse crédito quando já tenho o pedido do órgão na mão: compro, entrego e espero o pagamento. O dinheiro entra para cobrir uma venda que já existe, e não para tapar um buraco. Esse é o tipo de alavancagem que faz a empresa crescer em vez de afundar.

3. Venda mais, por um canal novo

A terceira saída é vender mais. Mas como vender mais com o cliente endividado e o crédito caro? Para mim, a resposta é buscar um novo motor de vendas, e o que eu conheço é o mercado de vendas para o governo. No modelo tradicional, você precisa de estoque, funcionário, loja física e marketing antes de vender, e muitas vezes isso exige capital de giro que você não tem.

No governo, a lógica é outra. Quando você vende produto, o órgão te dá um prazo para entregar. Você recebe o pedido, compra do fornecedor com o pedido na mão, entrega e espera o prazo de pagamento. Você não precisa se alavancar muito para começar. Basicamente, você precisa do CNPJ que já tem, achar as oportunidades na internet, se cadastrar e participar.

É um mercado grande e que comporta qualquer porte de empresa, do MEI à empresa grande. Só o Compras.gov.br, o Portal de Compras do Governo Federal, movimentou mais de R$ 465 bilhões em 2025, pelo balanço do Ministério da Gestão e da Inovação. E como você não carrega o custo operacional do modelo tradicional, a margem costuma ser maior. Você ainda precisa precificar bem e cumprir o contrato, mas é um canal que você pluga no negócio que já tem.

A minha opinião

O cenário é sério, e eu não vou fingir que está tudo bem. Ao mesmo tempo, eu não acho que a saída seja esperar os juros caírem. A saída começa dentro da empresa: caixa separado, crédito só para o que gera dinheiro e um canal de vendas que não dependa do cliente que está endividado. Se você quer entender o tamanho do problema do outro lado, eu falei dele no artigo sobre as empresas negativadas, aqui no blog.

E se o mercado de vendas para o governo faz sentido para o seu momento, o primeiro passo está em por onde começar a vender para o governo, aqui no blog. E me conta aqui embaixo: como estão as coisas aí no seu negócio? Você está passando por um momento de alerta, ou o aperto ainda não chegou na sua empresa?

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