O que é adesão à ata de registro de preço, e por que ela cresce justamente no fim do ano? A adesão é o que o mercado chama de carona. Um órgão que não participou da licitação compra pela ata que você já ganhou, com o mesmo preço e as mesmas condições. No último trimestre, o órgão precisa gastar o orçamento e não tem tempo de fazer edital. É aí que esse pedido aparece muito mais para quem tem ata.
Por que o governo compra mais no fim do ano
Eu explico com um combinado. Imagina que eu dou para você um milhão de reais para manter o seu órgão funcionando durante o ano. A regra é que, se sobrar dinheiro, eu tiro a sobra do seu orçamento do ano que vem. Você sai gastando tudo em janeiro? Claro que não. Você vai dosando, compra o essencial e deixa aquele mobiliário que não é prioridade para depois, se sobrar.
Lá por agosto, o órgão olha as contas e percebe que vai sobrar dinheiro. Aí ele acelera. Setembro, outubro, novembro e a primeira quinzena de dezembro concentram o maior volume de compras do ano. É por isso que eu chamo esse período de trimestre de ouro, o assunto de outro artigo aqui do blog. Muitos órgãos também usam esse fim de ano para preparar os editais do começo do ano seguinte. Nesse período sobem as dispensas eletrônicas, e sobem com força as adesões às atas.
O que é a ata de registro de preço
Tem pregão que é feito pelo sistema de registro de preço. Quando você ganha um pregão eletrônico desses, o resultado é homologado e gera a ata de registro de preço. É o seu compromisso com o órgão de vender aquele produto, ou prestar aquele serviço, pelo valor registrado e durante o prazo que o edital definiu. O órgão não é obrigado a comprar tudo de uma vez: ele pede conforme a necessidade aparece.
A Lei 14.133, no artigo 84, diz que a ata vale um ano e pode ser prorrogada por igual período, desde que o preço continue vantajoso. Para quem vende produto, é o que eu vejo na maioria das atas: um ano, com a chance de mais um. O ponto que pouca gente aproveita vem depois: na maior parte dos casos, a ata permite que outros órgãos façam a adesão.
Como funciona a adesão à ata
O órgão que não participou da licitação pode pedir para comprar pela sua ata, como se tivesse participado dela. O processo é transparente e está previsto em lei. O artigo 86 da Lei 14.133 exige três coisas. O órgão justifica a vantagem da adesão e mostra que o preço registrado está compatível com o mercado. E consulta antes o órgão que gerencia a ata e você, o fornecedor.
Esse último ponto quase ninguém comenta. A carona precisa do seu aceite. O pedido chegou para um lugar que você não consegue atender? Você não é obrigado a dizer sim. Quando faz sentido, você aceita, o órgão emite o pedido e você vende diretamente para ele, pelo preço da ata.
Tem um detalhe sobre ata de prefeitura. A Lei 14.770, de 2023, mudou o artigo 86 nesse ponto. Ata de município só recebe adesão de outros órgãos municipais, e só se o registro de preço saiu de licitação. Ata de órgão federal, estadual ou distrital aceita adesão de qualquer esfera.
Quanto uma ata pode render com as adesões
Por que eu acho a adesão sensacional? Porque ela multiplica o contrato que você já ganhou. A lei limita cada órgão que faz a carona a 50% das quantidades registradas na ata. E limita o total das adesões ao dobro dessas quantidades, não importa quantos órgãos peçam. Esses limites estão nos parágrafos 4º e 5º do artigo 86.
Na prática, se você tem uma ata de R$ 1 milhão, você vende esse milhão para o órgão que fez a licitação. Com as adesões, você ainda pode vender outros R$ 2 milhões, no máximo, para outros órgãos. Aquele contrato de um milhão pode terminar valendo R$ 3 milhões, sem você participar de uma licitação nova e sem disputar lance de novo.
Por que o órgão prefere a carona no fim do ano
Fazer um edital do zero leva, pelo que eu vejo, uns três meses. Tem o estudo técnico preliminar, o levantamento de preço, a passagem pelo financeiro e pelo jurídico, o termo de referência e o próprio edital. Agora imagina um órgão que precisa comprar celular em outubro. O dinheiro está ali, o valor passa do limite da dispensa e não dá tempo de fazer edital. O que ele faz?
Ele procura no mercado uma empresa que tem ata de registro de preço para celular e pede a adesão. O dono da ata dá o aceite e vende direto para o órgão. Para o órgão, a carona resolve rápido o que o edital levaria meses. Para você, é venda que chega sem disputa, num preço que você já calculou quando ganhou o pregão.
Um pedido de adesão de verdade
Eu mostrei no vídeo um pedido que chegou para mim. A Casa Militar do Governador pediu adesão à ata que eu tenho com a Polícia Militar da Bahia. Ela queria comprar 16 capacetes, num total de R$ 8 mil. A gente deu o aceite e vendeu, num processo totalmente transparente. É pedido pequeno? É. Só que ele veio sem licitação nova, em cima de uma ata que já estava ganha.
Esse tipo de pedido aparece muito mais no fim do ano. Eu mostrei no vídeo os dados do Siga Pregão de 2025. Teve um pico em abril, que deve ter vindo de algum contrato grande. Fora ele, setembro, outubro, novembro e dezembro foram os meses de maior volume de vendas. O tamanho do mercado também ajuda: só o Compras.gov.br, o Portal de Compras do Governo Federal, movimentou mais de R$ 465 bilhões em 2025. O número é do balanço que o Ministério da Gestão e da Inovação publicou em janeiro de 2026.
O que fazer agora com as suas atas
Se você já tem ata de registro de preço, não espere o pedido cair do céu. Faça uma lista dos órgãos que compram o seu produto e ofereça a ata. Liga, manda e-mail, bate na porta se você tiver condição de ir pessoalmente. Sabe aquela ata que o próprio órgão quase não está pedindo? Ela pode vender bem para outro órgão que precisa do mesmo produto agora.
E se você ainda não tem contrato nenhum, o fim do ano é uma ótima janela para conseguir os primeiros. O volume de oportunidades sobe, e cada pregão de registro de preço que você ganha hoje pode render caronas pelo ano que vem inteiro. O primeiro passo está em por onde começar a vender para o governo, aqui no blog.
A minha opinião
Muita gente trata a ata como um contrato que termina no órgão que fez a licitação. Eu trato a ata como um produto pronto. O preço está registrado, a disputa já foi vencida e a lei permite vender até o dobro para outros órgãos. No fim do ano, quando o órgão tem dinheiro e não tem tempo, quem tem ata na mão está na frente.
Eu vou aproveitar esse período, com certeza. E você, já tinha pensado em oferecer a sua ata para outros órgãos, ou ainda espera o pedido chegar? Me conta aqui embaixo, porque eu quero saber quantas atas estão paradas na gaveta por aí.



